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agosto 2, 2019 / Destaque, Notícias

Escolas que se anteciparam à obrigatoriedade de tratar do assunto já verificam entre os estudantes resultados práticos e entusiasmo em aprender sobre como cuidar do dinheiro

A partir do início de 2020, toda escola brasileira terá que tratar de educação financeira na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. O debate deve ser conduzido de forma transversal na escola — isto é, envolvendo outras disciplinas para além da matemática. Caso tenha sucesso, a novidade tem potencial para alterar um cenário alarmante: estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2015 mostra que mais da metade dos jovens brasileiros de 15 anos não tem conhecimentos básicos sobre como lidar com dinheiro cotidianamente. De 15 países analisados, o Brasil fica em último lugar.

Os jovens brasileiros chegam à fase adulta com grande risco de ficar inadimplentes. Segundo especialistas, quebrar esse ciclo é possível, e uma das estratégias é trabalhar a educação financeira em escolas, para que o hábito de cuidar do próprio dinheiro seja incorporado pelo resto da vida.

— A intervenção em crianças muda um comportamento geracional. É como a educação ambiental, o quanto mais cedo for introduzida, maior será o retorno, porque as crianças serão formadas com essa consciência — diz Ana Leoni, superintendente de educação financeira da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Em 2010, o governo federal implementou a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), uma política pública para fomentar o ensino de educação financeira. Ao analisar um projeto-piloto em escolas brasileiras, o Banco Mundial constatou que os alunos tinham se tornado mais conscientes em relação às próprias finanças. Com a incorporação da educação financeira em sala de aula, após a inclusão do tema na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), pais devem observar se os filhos estão discutindo dinheiro na rotina escolar.

Trabalhar o assunto não é só falar de porcentagem. Passa por reavaliar o valor do dinheiro, planejar o orçamento e discutir empreendedorismo, Previdência Social e sistema financeiro. O tema não precisa ser ensinado em uma disciplina específica – pode ser trabalhado em projetos, inclusive em matérias como história ou sociologia.

Peça teatral para falar sobre dinheiro

É o caso do professor de matemática Nicanor Kieling, que organizou uma peça teatral sobre educação financeira na Escola Estadual Germano Hessler, em Nova Hartz, e na Escola Municipal Ayrton Senna, em Sapiranga, onde ele trabalha. O enredo era a disputa entre uma filha consumista e sua mãe econômica, e o objetivo era refletir sobre a diferença entre necessidade e desejo. Na rotina diária, Kieling também promove reflexões financeiras: ao ensinar proporção no 7º ano do Fundamental, ele pede que os alunos pesquisem o preço do quilo de alimentos – a ideia é identificar se é mais vantajoso comprar o pacote de 1kg ou de 5kg.

— Tento trabalhar a autonomia deles, em questões do dia a dia — afirma.

— Alguns alunos compram a ideia e trazem de maneira forte o resultado. Uma aluna teve redução na conta da água de mais de R$ 100 só por comentar em casa que era preciso economizar — acrescenta.

No Colégio Monteiro Lobato, localizado no bairro Boa Vista, zona nobre de Porto Alegre, o professor de matemática Marcelo Cóser ensina educação financeira como conteúdo regular para o 2º ano do Ensino Médio. As discussões ocorrem há pelo menos uma década, desde que Cóser fez um mestrado sobre o ensino desse assunto em escolas.

Após estudar o surgimento do dinheiro, ambições e matemática financeira, os alunos aprendem a usar planilhas de Excel na sala de informática. A partir daí, eles calculam a variação de um investimento em relação a uma determinada taxa de juro. O objetivo é projetar a aposentadoria.

— Como é um assunto útil, eles enxergam com facilidade a aplicabilidade em situações práticas do dia a dia. O problema de falta de motivação nessa atividade é bem raro, mas eu tento trabalhar com eles questões que trazem um propósito claro, como economizar para a faculdade, por exemplo — diz Cóser.

Na rede pública, 130 professores de escolas estaduais de 30 cidades do Rio Grande do Sul estão sendo treinados, de maio a outubro, para abordar a educação financeira em sala de aula. O curso é organizado pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), mediante investimento de R$ 150 mil da Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF). A organização é conhecida por desenvolver projetos com o governo, como a Estratégia Nacional de Educação Financeira.

— Temos uma sociedade cada vez mais voltada ao consumo, sem a reflexão de como isso causa impactos. Ter professores dedicados a essa temática ajuda para que, no futuro, o Rio Grande do Sul tenha cidadãos questionadores sobre o uso do dinheiro — diz Clark Sarmento, assessor pedagógico da Secretaria Estadual da Educação (Seduc).

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